Otite de repetição em crianças: por que volta sempre e o que fazer

3 de julho de 2026

Seu filho já teve dor de ouvido mais de uma vez no mesmo ano, febre que parecia infecção de garganta e voltou logo em seguida, ou aquela sensação de que ele não escuta bem quando você chama? A otite de repetição em crianças é uma das queixas que mais angustiam as famílias, justamente porque parece um ciclo sem fim: trata, melhora, e pouco tempo depois tudo recomeça. Quero que você saiba, logo de início, que isso não é frescura nem descuido dos pais. Na maioria das vezes, existe uma explicação clara por trás das infecções que insistem em voltar, e existe também um caminho seguro para investigar e resolver.

Ao longo dos meus 16 anos de prática como otorrinolaringologista em Bauru, atendi muitas crianças que passaram por diversos ciclos de tratamento sem que alguém explicasse, com calma, por que aquilo estava acontecendo. Neste texto, quero conversar com você sobre o que é a otite, por que ela se repete tanto na infância, quando é hora de investigar mais a fundo e o que costuma fazer diferença de verdade no cuidado do seu filho.

O que é otite e por que ela é tão comum na infância?

A palavra otite significa, de forma simples, inflamação do ouvido. Na maioria dos casos que preocupam os pais, estamos falando da otite média, que é a inflamação da parte do ouvido localizada logo atrás do tímpano, o chamado ouvido médio. Esse espaço é conectado à parte de trás do nariz por um pequeno canal chamado tuba auditiva, e é justamente essa conexão que ajuda a explicar por que a infância é o período em que essas infecções mais aparecem.

Nas crianças, a tuba auditiva é mais curta, mais horizontalizada e ainda está amadurecendo. Isso dificulta a ventilação e a drenagem natural do ouvido médio. Quando a criança pega um resfriado, tem alergia ou apresenta obstrução no nariz, essa tuba pode ficar bloqueada. O líquido que deveria escoar acaba se acumulando atrás do tímpano, criando um ambiente propício para a proliferação de bactérias e vírus. É assim que surge a dor, a febre e, muitas vezes, a queda temporária da audição.

Além da anatomia própria da idade, alguns fatores aumentam a chance de o problema se repetir: frequentar creche ou escola desde cedo, exposição à fumaça de cigarro em casa, quadros alérgicos das vias respiratórias e, com bastante frequência, o aumento das adenoides, aquela estrutura de tecido de defesa localizada no fundo do nariz. Quando as adenoides estão muito grandes, elas atrapalham o funcionamento da tuba auditiva e mantêm o ciclo de infecções.

Por que a otite de repetição volta sempre?

Essa é, talvez, a pergunta que mais escuto no consultório. A sensação de repetição costuma ter uma causa que ainda não foi identificada ou tratada por completo. Quando a criança apresenta episódios de otite que se sucedem em curtos intervalos, precisamos olhar além do episódio agudo e entender o que está mantendo aquele ambiente favorável à inflamação.

Entre as causas mais frequentes da otite de repetição em crianças, destaco a obstrução nasal crônica e o aumento das adenoides. Quando o nariz vive entupido, a respiração se prejudica, a tuba auditiva não ventila direito e o ouvido médio fica vulnerável. Alergias respiratórias mal controladas seguem o mesmo caminho, mantendo as vias aéreas inflamadas por longos períodos. Há ainda situações em que fica líquido acumulado atrás do tímpano por semanas ou meses, mesmo sem dor evidente, o que chamamos de otite média com efusão. Nesses casos, o principal sinal não é a dor, mas a dificuldade auditiva.

É importante entender que tratar apenas a crise, com o alívio dos sintomas, resolve o episódio, mas não necessariamente interrompe o ciclo. Por isso, quando há repetição, a investigação estruturada faz toda a diferença. O objetivo não é medicar sem parar, e sim compreender a causa que sustenta o problema, para agir sobre ela.

Quantas otites por ano são consideradas de repetição?

Existe um parâmetro que uso como referência na prática clínica e que está descrito em diretrizes internacionais de otorrinolaringologia. De modo geral, considera-se otite de repetição quando a criança apresenta três ou mais episódios de otite média aguda em seis meses, ou quatro ou mais episódios em um ano, sendo pelo menos um deles nos últimos seis meses.

Esse número não é uma regra rígida que decide sozinha a conduta, mas serve como um alerta importante. Quando esse padrão aparece, entendo que não estamos mais diante de eventos isolados, e sim de uma situação que merece avaliação mais cuidadosa. É nesse ponto que investigar a respiração, o nariz, as adenoides e a audição se torna essencial. Cada criança é única, e a decisão sobre o que fazer sempre depende da história completa, do exame físico e, quando necessário, de exames complementares.

Quais são os sinais de alerta que os pais devem observar?

Muitas vezes, os pais percebem que algo não vai bem antes mesmo de qualquer exame. Por isso, valorizo tanto a escuta ativa na consulta: o que a família observa no dia a dia é uma fonte valiosa de informação. Alguns sinais merecem atenção especial e justificam uma avaliação com otorrinolaringologista.

Entre eles, destaco a dor de ouvido frequente, com a criança levando a mão à orelha ou chorando à noite; episódios repetidos de febre associados a queixas de ouvido; e a saída de secreção pelo ouvido. Além disso, há sinais mais silenciosos, porém igualmente importantes: a criança que aumenta muito o volume da televisão, que pede para repetir o que foi dito, que parece distraída ou que apresenta queda no rendimento escolar sem causa aparente. A audição prejudicada, mesmo que temporária, pode afetar a fala, a atenção e o aprendizado.

Também observo com cuidado as crianças que roncam, respiram pela boca, dormem com o sono agitado e acordam cansadas. Esses sinais frequentemente apontam para obstrução nasal e aumento de adenoides, que, como expliquei, se relacionam diretamente com as otites de repetição. Nesse ponto, o cuidado com o nariz, o ouvido e o sono caminha junto.

Como é feito o diagnóstico da otite de repetição em crianças?

O diagnóstico começa muito antes de qualquer aparelho. Ele começa na conversa. Na primeira consulta, dedico tempo generoso para entender a história do seu filho: quando os episódios começaram, com que frequência voltam, como é a respiração durante o dia e à noite, se há histórico de alergia na família e como está o desenvolvimento da fala e do aprendizado. Essa anamnese detalhada é o alicerce de tudo o que vem depois.

Em seguida, realizo o exame físico direcionado, avaliando os ouvidos, o nariz e a garganta. Um recurso que faz grande diferença é a possibilidade de complementar a avaliação com exames no próprio consultório, o que confere agilidade e precisão. Entre eles, a audiometria permite avaliar a audição da criança, algo fundamental quando existe suspeita de perda auditiva ou de líquido acumulado no ouvido médio. Já os exames endoscópicos, como a nasofibroscopia, permitem examinar em detalhe o fundo do nariz e verificar diretamente o tamanho das adenoides e a condição da tuba auditiva.

Essa avaliação integrada é o que me permite distinguir uma otite ocasional de um quadro de repetição com causa definida. Com o diagnóstico esclarecido, explico tudo à família em linguagem acessível, mostrando o que está acontecendo e por que aquilo se repete. Alinhar as expectativas antes de definir a conduta é, para mim, parte essencial de um cuidado seguro.

Qual o tratamento para otite de repetição em crianças?

Não existe uma resposta única, e é exatamente por isso que desconfio de fórmulas prontas. O tratamento da otite de repetição em crianças é sempre individualizado e depende da causa identificada, da idade, da frequência dos episódios e do impacto sobre a audição e a qualidade de vida.

Em muitos casos, o caminho começa pelo tratamento clínico, com o manejo adequado dos episódios agudos e, principalmente, o controle dos fatores que mantêm o ciclo. Isso pode envolver o tratamento das alergias respiratórias, a atenção à obstrução nasal e a orientação sobre medidas ambientais, como evitar a exposição à fumaça de cigarro. Ressalto que qualquer conduta medicamentosa deve ser prescrita e acompanhada por um médico, considerando a avaliação individual de cada criança, e não a partir de recomendações genéricas.

Quando há aumento importante das adenoides que sustenta as infecções, ou quando o líquido permanece acumulado no ouvido médio por tempo prolongado, com prejuízo da audição, a avaliação cirúrgica pode ser considerada. Nesses cenários, a cirurgia de adenoides e, em situações específicas, a colocação de um pequeno tubo de ventilação no tímpano podem ajudar a interromper o ciclo e a proteger o desenvolvimento auditivo. Faço questão de deixar claro: a indicação cirúrgica nunca é generalizada. Ela depende de avaliação criteriosa, do quadro clínico e dos exames complementares. Cada família recebe a explicação completa sobre os motivos, os benefícios e as etapas do procedimento, para que a decisão seja tomada com segurança e tranquilidade.

A otite de repetição pode afetar a audição e a fala da criança?

Sim, e essa é uma das razões pelas quais levo tão a sério a investigação desses quadros. Quando o ouvido médio fica repetidamente inflamado ou permanece com líquido acumulado, a audição pode cair de forma temporária. O problema é que a infância é justamente o período em que a criança está aprendendo a falar, a se comunicar e a se desenvolver na escola. Uma audição comprometida, mesmo que parcial e passageira, pode dificultar esse aprendizado.

Por isso, quando percebo sinais de que a audição pode estar afetada, a avaliação por audiometria ganha ainda mais importância. Identificar precocemente uma perda auditiva relacionada às otites permite agir a tempo, protegendo o desenvolvimento da fala e o rendimento escolar. Muitos pais só percebem o quanto a audição estava prejudicada depois que o problema é resolvido, quando notam a criança mais atenta, mais comunicativa e mais participativa. Esse é um dos resultados que mais me motivam nesse cuidado.

Como prevenir novos episódios de otite?

A prevenção começa por cuidar bem da respiração e do ambiente da criança. Manter o nariz saudável, tratar adequadamente as alergias respiratórias e controlar a obstrução nasal são medidas que ajudam a reduzir a frequência das otites, pois melhoram o funcionamento da tuba auditiva. Evitar a exposição à fumaça de cigarro dentro de casa também tem papel relevante, já que essa exposição irrita as vias respiratórias e favorece as infecções.

Além disso, manter o acompanhamento pediátrico em dia, seguir o calendário de vacinação orientado pelo médico da criança e observar de perto os sinais que mencionei ao longo do texto fazem parte de uma estratégia de prevenção consistente. Quando a otite já se repete, porém, a melhor forma de prevenir novos episódios é justamente identificar e tratar a causa de base. Prevenir, nesse contexto, significa investigar bem e agir sobre o que sustenta o ciclo, em vez de apenas apagar incêndios a cada crise.

Quando levar a criança ao otorrinolaringologista?

Recomendo a avaliação com otorrinolaringologista sempre que os episódios de otite se tornarem frequentes, quando houver suspeita de que a audição está sendo afetada, ou quando a criança apresentar sinais de obstrução respiratória, como ronco, respiração pela boca e sono agitado. Também considero importante buscar uma segunda opinião quando a família sente que trata sem parar, mas o problema simplesmente não cede.

Atendo crianças de Bauru e de toda a região, com atenção especial às doenças respiratórias e à sua relação com os ouvidos e o sono. Meu objetivo, em cada consulta, é oferecer um diagnóstico preciso, um tratamento individualizado e um acompanhamento próximo, para que a família se sinta acolhida e segura em todas as etapas. Enxergo cada criança por inteiro, considerando não apenas o sintoma, mas o contexto de vida, o desenvolvimento e o bem-estar de toda a família.

Por que confiar neste conteúdo?

Este artigo foi elaborado com base em diretrizes reconhecidas de otorrinolaringologia e pediatria, unindo rigor científico e experiência clínica. As orientações aqui apresentadas têm o objetivo de informar e conscientizar, e não substituem a avaliação individual em consultório.

  • Diretrizes da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) sobre otite média e afecções do ouvido na infância.
  • Recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) relacionadas ao cuidado das infecções respiratórias e do desenvolvimento infantil.
  • Parâmetros da American Academy of Otolaryngology – Head and Neck Surgery (AAO-HNS) referentes à otite média aguda e à otite média com efusão.
  • Contribuições da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) sobre o manejo das alergias respiratórias associadas à obstrução nasal.
  • Conteúdo revisado por mim, Dr. José Eduardo Antunes Pinheiro (CRM 151.217 | RQE 61718), otorrinolaringologista com residência pelo Hospital de Base de São José do Rio Preto, fellowship em Rinologia pela University of Miami e 16 anos de experiência clínica e cirúrgica com adultos e crianças.

Perguntas frequentes sobre otite de repetição em crianças

Otite de repetição tem cura? Na maioria dos casos, é possível interromper o ciclo de infecções quando identificamos e tratamos a causa de base, como a obstrução nasal ou o aumento das adenoides. Não existe uma solução única para todas as crianças, mas o tratamento individualizado costuma trazer melhora significativa na frequência dos episódios e na qualidade de vida.

A otite de repetição sempre precisa de cirurgia? Não. Muitos quadros são bem conduzidos com tratamento clínico e controle dos fatores que mantêm o problema. A cirurgia é considerada apenas em situações específicas, após avaliação criteriosa do quadro clínico e dos exames complementares.

Como sei se meu filho está com a audição prejudicada? Alguns sinais ajudam, como aumentar o volume da televisão, pedir para repetir frases, parecer distraído ou apresentar queda no rendimento escolar. A avaliação por audiometria em consultório permite medir a audição com precisão e esclarecer a dúvida.

Otite de repetição está relacionada ao ronco e à respiração pela boca? Com frequência, sim. O aumento das adenoides e a obstrução nasal, que provocam ronco e respiração pela boca, também prejudicam a ventilação do ouvido, favorecendo as otites. Por isso, avaliar o nariz, o ouvido e o sono em conjunto é tão importante.

Meu filho já teve várias otites. É tarde para investigar? Não. Independentemente de quantos episódios já ocorreram, sempre vale investigar a causa. Identificar o que sustenta as infecções é o passo que abre caminho para um tratamento mais eficaz e duradouro.

Conclusão

Conviver com a otite que volta sempre é cansativo para a criança e angustiante para os pais, mas quero reforçar uma mensagem: existe explicação e existe caminho. Quando olhamos para o quadro por inteiro, avaliamos a respiração, o ouvido e a audição com os recursos adequados e agimos sobre a causa, é possível reduzir os episódios, proteger o desenvolvimento e devolver noites tranquilas para toda a família.

Uno técnica refinada e acolhimento genuíno, com exames de audiometria e nasofibroscopia no próprio consultório, cirurgias com técnicas modernas quando indicadas e acompanhamento próximo em cada etapa, do diagnóstico ao pós-operatório. Se o seu filho tem otites que insistem em voltar, ronca, respira pela boca ou parece não ouvir bem, agende uma consulta presencial em Bauru, online ou no formato híbrido. Vamos, juntos, encontrar a solução mais segura para o caso do seu filho.

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